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Inferno Astral

Tudo que nasce com sol em Leão  É passível de incompreensão  Ainda é dia 8 Me falta alguns dias de inferno astral pra passar Mas você sempre vem com seu rolo compressor de teorias que não se aplicam E eu engulo a seco Tenho preguiça da réplica e tréplica Tu quer acordar meus traumas  Pra eu ter que lidar com eles de novo  Recordar é sofrer em dobro Uma coisa em mim morreu  Mas eu tenho dificuldade em reconhecer  Suicídio, assassinato, crime culposo, use o termo que quiser A culpa mora em nós  Nem mais sua e nem menos minha Se a gente segue Em teoria ou na prática  Acho que nem eu quero mais saber.

Efeito domingo

As paredes brancas do meu quarto parecem querer me engolir, a cor não traz paz, mas eu tô em paz, ao menos fico me dizendo isso pra não me apavorar, dia desses fiquei feliz pelos meus filtros estarem preservados, em outros tempos eu sairia me jogando nas coisas, sem nem me preocupar com quinas, móveis espalhados no meio da casa, tô tão nada... tenho preguiça de tudo, é o efeito fim de domingo, esse sentimento me azucrina o juízo, eu queria falar qualquer coisa, pra qualquer pessoa que só quisesse me ouvir gratuitamente, mesmo não tendo nada de relevante a dizer.

Us

Nós não somos bom exemplo pra ninguém e nem pra nós mesmos, a gente deu errado, por favor não romantiza isso, tu me reduziu a pó, talvez por querer tanto tirar proveito da experiência eu isolei esses detalhes... "Ser de boa" não me arrancou o coração do peito, ele estava ali por mais que eu me esforçasse pra não acreditar. A negação me dava a sensação de zona de conforto, que tudo ficaria bem independente do desfecho. Hoje tenho certeza que ficou, mas eu me flagrei arrependida de não me arrepender do nosso começo - certo por linhas tortas, linha essa que faço uso pra despejar o que não consigo verbalizar na hora que as coisas estão acontecendo. Tenho dificuldade em sentir dores, fazer delas uma alucinação ainda que seja momentânea deixa tudo suportável.

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Eu desaprendi a chorar em 2020, talvez pelo excesso em que me derramei no ano anterior. Meu choro é minha pérola particular, se meus olhos transbordam é preciso um bom motivo pra justificar, faz tempo que não tenho mais motivos... A maior parte da minha vida eu distribuí meu choro em filas, percursos de ônibus, quando ouvi meus cantores e bandas favoritas se apresentarem ao vivo. A última vez que chorei foi em janeiro com a minha mãe, eu tava com medo de morrer, logo eu que sempre bato no peito pra dizer que nada me prende nesse mundo, caí na minha  própria contradição. Alguma coisa sempre me corroeu o peito, já chorei tanto em prol dos vazios, que de um modo estranho me debulhar em lágrimas era uma tentativa vã de limpar e abrir mais espaço dentro de mim. Sempre temi me tornar uma pessoa fria, a idade tá me deixando mais dura do que de costume, poucas coisas me emocionam hoje em dia, eu nunca mais saí no sol, o meu rosto tá sempre coberto por camadas de máscaras, eu nem sei rir co...

Eu sinto muito

Eu me sinto fraca por toda energia que gastei e ao mesmo tempo me sinto uma fortaleza por ter aguentado até aqui. Eu me sinto um copo vazio de bar, o garçom passa direto e não me serve outra dose. Eu me sinto saudosa da garota que recebeu um pen drive de 4gb com a discografia de boa parte das bandas que gostava, foi fácil detectar aquela paixão ao acaso. Eu me sinto flutuando em terra firme, mas não é de felicidade, é por não saber pra onde ir... Eu me sinto com saudade de mim aos cinco anos, da minha chupeta dando todos os trabalhos pra largar meu primeiro vício, de entender que não iria ter tudo no mundo. Eu me sinto ansiosa quando lembro do trauma proporcionado por um telefonema dia 24/12/2015, a ligação poderia não ter existido e eu não lidaria com os desdobramentos disso até hoje. Eu me sinto às 02:37 sobrevivente de um fim do mundo que ainda não me atingiu, mas um dia vai.

Destinatário Desconhecido

 Oi,  Saiba que sinto saudades, você não me conhece e eu tampouco a você, sempre ansiei sua chegada, me preparei a vida inteira pra que o seu lugar fosse ocupado, já pensei muito a respeito, talvez de tanto pensar nos últimos tempos quase tenha esquecido a atividade, penso em você como alguém cheio de verdades que dispensem uma contra argumentação, que rompe a minha natureza pelo simples fato de você ser você. Hoje eu ouvi de novo aquela música depois de anos, em que fala do medo de não te reconhecer, é uma sensação muito estranha, penso que esse encontro esteja marcado num outro plano, mas isso não me apavora, apenas exige de mim um pouco mais de paciência. Fotografia de uma ausência sem rosto, sem nome, sem cidade natal, o ponto de encontro fica na localização do meu coração, é onde você existe só pra mim, das poucas certezas que trago da vida é que meu olhos vão te identificar de imediato, espero que aconteça o mesmo da sua parte e o universo nos proteja até lá, essa carta ...

11

O par de números iguais representam pouco mais de uma década em que sigo registrando esse poço profundo de ser eu mesma, pré-sal de emoções genuínas sem muito êxito nas interpretações, hoje na versão colcha de retalhos que fui costurando ao longo do tempo, visualmente não é agradável aos olhos, são aqueles pedaços onde eu fui cortando e me desfazendo pra poder remendar algum canto até ficar com aparência de "inteiro". Eu já fui tantas pessoas que tenho medo de esquecê-las, é uma sensação estranha de não poder desprender elas de mim, como se fosse um lembrete, engenheiras das estradas por onde sigo caminhando, mas ainda não consigo fechar os olhos e só seguir. Vez ou outra o sentimento de não mais saber escrever aqui me invade, é terrível. Aí basta eu abrir o editor de texto que todos os meus insights reaparecem, estou aqui e não vou embora, eu prometo.